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Transtornos do Espectro Autista (TEA) - Autismo

Os Transtornos do Espectro Autista (TEA) referem-se a um grupo de transtornos caracterizados por um espectro compartilhado de prejuízos qualitativos na interação social, associados a comportamentos repetitivos e interesses restritos pronunciados. Os TEAs apresentam uma ampla gama de severidade e prejuízos, sendo frequentemente a causa de deficiência grave, representando um grande problema de saúde pública.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - DSM) visa uniformizar o diagnóstico médico. Em sua 4ª edição, o DSM trouxe uma ampliação dos critérios diagnósticos para o autismo atribuído, principalmente, à ampliação do conceito de autismo. O autismo passou a ser descrito como um espectro de condições, com bases comuns, mas, características particulares e prognósticos distintos, estabelecidos de acordo com diferentes índices.

A primeira pesquisa epidemiológica, visando estabelecer o número de casos existentes de autismo foi realizada em 1966, na Inglaterra. O resultado demonstrou que quatro em cada 10.000 pessoas preenchiam os critérios diagnósticos da época. Ao longo de quase 40 anos, a prevalência do autismo cresceu bastante. O último boletim do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), órgão americano responsável pelo controle e notificação de doenças, publicou em 2014, que nos EUA existe um indivíduo com autismo, nos seus diferentes graus, para cada 68 não afetados (1:68). Apesar de algumas restrições e críticas à metodologia do trabalho, é fato que houve um aumento na identificação de indivíduos no transtorno do espectro autista. Os profissionais de saúde, as instituições de ensino e toda a sociedade, impeliu ao aumento da demanda a desenvolveram conhecimento sobre o tema. Em grande parte, a responsabilidade pela disseminação de informações sobre o transtorno do espectro autista (TEA) resultou do trabalho de associações de pais, em busca de diagnóstico precoce e intervenções adequadas para seus filhos.

Os critérios diagnósticos estabelecem que os sintomas estão, obrigatoriamente, presentes antes do 36 meses de vida ou até os sete anos, no caso de casos maior demanda, principalmente social, para a criança. O diagnóstico dos transtornos do espectro autista é clínico. Baseia-se em uma história (anamnese) bem colhida, informações coletadas com mais de uma fonte (pais, familiares, escolas e outros profissionais que atendam o indivíduo). Nenhum exame laboratorial dará o diagnóstico de TEA. Vale ressaltar, no entanto, que cada vez mais estimulamos o uso de instrumentos validados para triagem e diagnóstico do TEA. Nenhum destes instrumentos substitui o diagnóstico clínico, mas sem dúvida ajuda e orienta o mesmo.

Existem várias explicações, em campos teóricos distintos. Porém, considerando a medicina baseada em evidencia, está claro existir um componente genético na maior parte dos casos. Quando falamos de genética hoje em dia, falamos tanto de alterações que são herdadas pela transmissão de material genético dos pais, como também pela transmissão de possíveis modificações que ocorrem em nossas células sem necessariamente mudar a sequência do nosso material genético. Fatores ambientais também estão comprovadamente envolvidos. Aqui existem basicamente duas formas diferentes, uma pode ser entendida quando o indivíduo já traz uma alteração genética, mas ela pode se manifestar ou não dependendo da interação com o ambiente, por exemplo, uma criança nasce com uma variação na sequência genética que sozinha parece não ter muito significado, porém se esta criança for exposta a um fator ambiental específico dependendo da variação que ele tem no DNA vai ter mais chance de desenvolver uma patologia; o outro tipo é aquela onde parece que fatores ambientais vão mudar o comportamento das células e fazer com que a criança tenha maior chance de ter uma patologia, independentemente de ela ter uma variação na sequência genética... infecções, poluentes, doenças maternas, complicações na gestação, por exemplo. Podemos dizer que existe uma interação entre o material genético que uma criança carrega e o ambiente.

A consequência do autismo na vida de portadores dependerá do grau de comprometimento, da retaguarda familiar, das doenças associadas, da idade do diagnóstico e do tipo de intervenção realizada. Pessoas com autismo leve apresentam dificuldades na socialização/comunicação, porém há demanda social para que convivam de forma funcional com outras pessoas ditas normotípicas. Podem ter dificuldade de aprendizagem, ilhas de habilidades, com interesses específicos ou um jeito peculiar de organizar o conhecimento. Muitas vezes, precisam de adequação no currículo escolar, na forma de avaliação e no emprego. Podem, mais frequentemente, serem vítimas de "bulling", pelo seu jeito pouco usual de ser. Na adolescência, sintomas depressivos podem ser associados à clínica, em indivíduos com preservação de cognição e crítica. Com a vida adulta outros desafios começam. A independência, a entrada no mercado de trabalho, os relacionamentos e constituição de família. Nas pessoas com sintomas mais graves, alterações de sono, alimentação, comportamento autolesivo e outras variações de comportamento comprometem tanto a qualidade de vida do indivíduo quanto à de toda a família.

No Brasil, o movimento das famílias e das organizações vem sendo muito importante para a conscientização da população sobre o TEA, promovendo a capacitação de profissionais e pais para o diagnóstico, identificação dos sintomas e busca pela intervenção.

Atualmente, o diagnóstico precoce é mais frequente, e, desta forma, as famílias são direcionadas com informações e intervenções baseadas em evidencia cientifica, como a intervenção comportamental. É fundamental conhecer as habilidades da criança para desenvolvê-la e incluir na sociedade.

Pais e profissionais, das mais diversas áreas, empenham-se em desenvolver recursos para atender as necessidades especificas desses indivíduos. Os próprios indivíduos com TEA se apropriaram mais acuradamente dos seus sintomas, potencias e dificuldades. Indivíduos que, por sua vez, tornaram-se vetores de informação, disseminando conhecimento e transformando o conceito de autismo na sociedade. Questões envolvendo sexualidade, mercado de trabalho, aspectos clínicas associadas e o envelhecimento são cada vez mais frequentes nas discussões sobre o futuro desses sujeitos.

Mais informações no site: www.autismoerealidade.org

Joana Portolese Coordenadora da Autismo&Realidade - Associação de Estudos e Apoio Coordenadora da equipe multidisciplinar e da avaliação neuropsicológica do PROTEA - Programa de Transtorno do Espectro Autista, Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HC-FMUSP).

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